DIRETRIZ DA EMPRESA A nova batalha de Bill Gates O general estrategista da Microsoft aponta suas baterias para a América Latina, prepara-se para novo investimento no Brasil e atira nos concorrentes
Joaquim Castanheira, de Miami
Foto: Régis Filho
Bill Gates, o homem mais rico do mundo, é um sujeito simpático. Fala pausada, gestos contidos, ele responde com tranqüilidade a todas as perguntas de seus interlocutores. Algumas palavras ou expressões, porém, têm o poder de alterar imediatamente sua postura. São elas: Linux, ação judicial contra monopólio, e o Application Service Provider (ferramenta que possibilita o uso de programas aplicativos a partir da Internet), etc. Ao ouvi-las, o autoproclamado arquiteto-chefe da Microsoft substitui o leve sorriso que traz no rosto por uma série de caretas, suspiros, arquear de sobrancelhas, demonstrando uma impaciência crescente com tais assuntos. O tom de sua conversa também torna-se mais irônico. Por exemplo: aos ser perguntado sobre o Linux, sistema operacional que ameaça o poderio do Windows, Gates responde: “Tenho estudado isso com muito cuidado”. Em seguida, dispara críticas ao concorrente.
É fácil explicar esse mau humor. São justamente essas questões que colocaram Gates e sua criação, a Microsoft, no momento mais delicado de sua bem-sucedida história. Enquanto tenta vencer todas essas frentes de batalha, a Microsoft procura também não perder o trem no setor que, segundo todos os prognósticos, conduzirá os negócios no futuro, a Internet. Dentro de 3 a 4 semanas, segundo Gates, a empresa anunciará um grande negócio nessa área, provavelmente um portal e possivelmente em conjunto com um grande parceiro local. Na tentativa de se aproximar mais do mercado, Bill Gates passou a terça-feira 21 no Hotel Intercontinental, em Miami, participando da Microsoft Latin America Enterprise Solutions Conference, que contou com a participação de mais de 600 clientes de todo o continente. Entre palestras, reuniões de trabalho e conversas com executivos da região, Bill Gates concedeu a entrevista abaixo, na qual aborda diversas questões, entre elas aquelas que mais o incomodam. Falou também de sua nova função, como arquiteto-chefe da Microsoft, que, segundo ele, é uma volta às origens, mas que, de acordo com alguns especialistas, trata-se de uma tentativa de retomar o lendário pioneirismo da Microsoft.
DINHEIRO - O sr. acaba de lançar um portal para Internet no México. Quando entrará no Brasil com esse serviço? Bill Gates - O Brasil representa a maior parcela de nossos negócios na América Latina. Em 3 a 4 semanas, estaremos anunciando algo nesse sentido para o mercado brasileiro.
DINHEIRO - A Globo está anunciando o lançamento de um portal, o Globo.com. A Microsoft será parceira nesse empreendimento? Gates -Temos parceria com a Globo na Globocabo, mas não há nada definido em relação à participação nesse portal até o momento. Ainda estamos em fase de definição.
DINHEIRO - As dificuldades estruturais da Internet no Brasil podem ser um fator de inibição para os investimentos no País? Gates - Há um grande potencial para a Internet no Brasil em particular e na América Latina em geral. Hoje há um movimento de cerca de U$ 1,6 bilhão em publicidade na Internet latino-americana. A perspectiva de comércio eletrônico em 2003 supera os US$ 11 bilhões. O continente é o segundo em todo o mundo em crescimento no uso de informação tecnológica, atrás apenas dos Estados Unidos. Na época do lançamento do PC, todos sabiam que seria revolucionário, mas ninguém apostava que ele afetaria tanto nossas vidas como acontece hoje. Acho que com a Internet, o mesmo acontecerá.
DINHEIRO - Por que começar pelo México, e não pelo Brasil, que é o maior mercado para a empresa no continente? Gates -Há a questão do idioma, pois com o espanhol poderemos atingir um grande número de países na região. Também vamos aproveitar recursos e infra-estrutura já existente em nosso portal americano, inclusive o hotmail gratuito. Teremos ainda acesso à comunidade hispânica nos Estados Unidos, que é muito grande e importante para nós. Mas logo estaremos no Brasil, pois, como já disse, há negociações em andamento. Acreditamos que um portal deve ter 85% de conteúdo local e os outros 15% de conteúdo geral. Então, é muito importante ter condições de atender esse tipo de necessidade.
DINHEIRO - A Microsoft está se tornando uma empresa de Internet? Gates -Somos e continuaremos sendo uma empresa de softwares. Não somos e não seremos uma companhia de conteúdo de Internet. Não é nosso foco, não é nosso negócio. O uso e o acesso à Internet aumentarão tremendamente nos próximos anos e há uma série de ferramentas e softwares que terão de ser aprimorados e criados para atender a essa demanda. Por exemplo: com a proliferação de sites, haverá necessidade de criarmos mecanismos para facilitar a busca e o acesso às informações de interesse do usuário. Então existe um espaço enorme para nosso trabalho e para nossa vocação. Temos condições de atuar em portais em função de nossa tecnologia e nosso conhecimento, que são fundamentais para a infra-estrutura e bom funcionamento. Mas, embora tenha algumas idéias sobre conteúdo, não sou o especialista.
DINHEIRO - Quais são essas idéias? Gates - Acredito que, com o tempo, os sites terão de ser mais sofisticados, mais especializados, não poderão ser superficiais. Mas os portais terão de ser generalistas e abrangentes, atendendo a uma gama variada de interesses e necessidades.
DINHEIRO - Quais serão os grandes desafios para o e-commerce nos próximos tempos no Brasil? Gates -Acredito que a Internet passará para uma nova fase em breve. Na primeira fase, ela era utilizada apenas para mostrar informações da empresa, sem grande interação com o usuário. Na segunda, as empresas começaram a trocar informações, mas sem realizar efetivamente negócios. A terceira foi a fase de realização de negócios, que está em curso agora e em grande desenvolvimento. A próxima será aquela em que as empresas intercambiarão dados complexos entre si, permitindo realizar qualquer tipo de negócio. A Internet será capaz de realizar qualquer sonho no futuro. Mas o grande desafio da rede não está dentro dela. Há pelo menos duas grandes questões envolvidas. Uma delas é a logística, que terá de ter a capacidade de levar as mercadorias até o consumidor. Outra questão a ser resolvida é sobre a tributação.
DINHEIRO - Fala-se muito no impacto da Internet nas relações comerciais. O sr. vê necessidade de as empresas terem um novo desenho para atuar nesse novo cenário? Gates -Será necessário mudar todos os processos dentro da empresa para se adaptar ao mundo digital. As empresas terão de ter menos papel. Haverá menos reuniões, mas que serão melhores. Como será muito ágil e mais democratizada, a comunicação obrigatoriamente terá de ser bem coordenada, sob o risco de surgirem informações desencontradas dentro da empresa.
DINHEIRO - Esse novo mundo fez com que a Microsoft se estruturasse de uma maneira diferente? Gates -A Microsoft se redesenha a cada 18 meses, em média. O que não muda é nossa filosofia de atrair e motivar os melhores talentos para nossos grupos de pesquisa. Não há empresa mais generosa no mundo na concessão de ações para seus funcionários do que a Microsoft.
DINHEIRO - Sua nova função como arquiteto-chefe tem relação com esse redesenho? Gates -Essa é a parte do trabalho da qual eu gosto. Hoje, 90% de meu tempo é consumido junto aos grupos de produtos. Vivo permanentemente nas fronteiras do conhecimento e do desenvolvimento.
DINHEIRO - A Microsoft é uma empresa preparada para a concorrência? Gates -Tenho estudado isso com muito cuidado. A Microsoft sempre enfrentou concorrência. Nós já concorremos com a IBM, lembra-se? O Windows é infinitamente melhor do que o concorrente. Se você pegar o Linux e incluir os aplicativos e todos os mecanismos de segurança e infra-estrutura para que ele chegue ao nível do Windows, pagará cinco vezes mais o valor de nosso produto. Além disso, o usuário não tem certeza de como os aplicativos vão funcionar com o Linux. Mais: esse concorrente não tem uma estratégia de desenvolvimento de longo prazo, para revolucionar o que é um software. Ele não tem pesquisa para, por exemplo, incorporar recursos de reconhecimento de voz em seu software. Nós fazemos isso como ninguém. Por isso temos uma participação alta e estamos bem colocados no mercado.
DINHEIRO - O sr. acredita numa divisão da empresa por ordem da Justiça? Gates -Não haverá divisão. Quem especular com isso pode cair na irresponsabilidade. O cliente escolhe nossos produtos. Nós não pretendemos desenvolver nossos softwares para outra plataforma que não seja o Windows.
DINHEIRO - Qual sua posição a respeito do Application Server Provider? Gates -Temos condições de oferecer o que o cliente deseja e necessita. Temos entregado softwares para nossos clientes com o direito de uso. Ele poderá acessar a Internet para atualizar o software que já tem. Em casos como esses ele paga por mês. Estamos em situação confortável.
DINHEIRO - O senhor tem falado muito no mundo sem papel. O senhor acredita que ele realmente existirá? Gates -É claro que haverá uma substituição da leitura em revistas e jornais impressos por meios eletrônicos. Mas nada disso acontece da noite para o dia. Além disso, as empresas de comunicação não têm seu foco na impressão de jornais e revistas, mas na elaboração do conteúdo. A necessidade desse conteúdo permanecerá, e, por isso, vejo uma oportunidade de grandes negócios para o setor de comunicação. As empresas não perderam sua capacidade de enviar notícias de forma cada vez mais agradável e eficiente. E podem fazer isso através dos meios eletrônicos.
DINHEIRO - Alguns especialistas, entre eles Allan Greespan, presidente do FED, têm alertado para o que consideram a valorização excessiva das ações das empresas de tecnologia. O senhor concorda que há algo de artificial nessa valorização? Gates - Vivemos um período de entusiasmo com a Internet. Todos, inclusive os analistas, vêem pais e crianças utilizando computadores para todas suas tarefas profissionais, pessoais e de lazer. O número de computadores nas casas continua crescendo. Isso tudo beneficia as pessoas e as empresas. Por isso surge essa euforia. Eu não sou especialista, não entendo de bolsa de valores. Se alguém entende disso, então, boa sorte…